
Os produtores rurais de Mato Grosso que não pagaram as parcelas de 2008 que venceram no dia 15 de outubro já começaram a ser cobrados judicialmente pelos credores. Na região Sul do estado, vários agricultores estão sendo surpreendidos com ordem de apreensão de máquinas e equipamentos agrícolas nas fazendas, requerida pelo Banco Case/New Holland (CNH). A informação é do presidente do Sindicato Rural de Rondonópolis e diretor executivo da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja/MT), Ricardo Tomczyk, que concedeu a seguinte entrevista:
Esta movimentação dos bancos já era esperada em razão da falta de pagamento das parcelas da dívida vencidas em outubro?
Ricardo – É uma insensatez. Não poderia ocorrer em pior momento (em pleno plantio), mas a bolha do subprime agrícola brasileiro estourou. A ineficiência do governo federal nas negociações do endividamento agrícola levou os bancos a iniciar o processo de busca e apreensão de máquinas, num momento crucial da safra, quando as máquinas estão em uso total. Os tratores e plantadeiras fazem o plantio, os pulverizadores os tratos culturais e as colheitadeiras, a colheita, finalizando o processo de produção. Se já foi difícil plantar com as condições negativas de crédito e custos, que dirá se levarem nossas máquinas, como já estão fazendo, causando mais instabilidade junto ao produtor e ao sistema de crédito rural. Alguém pode explicar como vamos colher o que foi plantado a duras penas?
O agronegócio é a base da economia estadual. Como o governador tem se posicionado?
Ricardo – Diante do agravamento da crise o governador, temendo os resultados trágicos para a economia do estado, foi a Brasília acompanhado de representantes das entidades do agronegócio de Mato Grosso expor a situação crítica pela qual passa a produção regional, com a falta de crédito e renda para o produtor e solicitar medidas urgentes para viabilizar esta safra. Foram propostas a injeção de recursos no sistema produtivo e a imediata prorrogação de todos os vencimentos das parcelas das dívidas rurais de 2008. É uma questão de sobrevivência e continuidade da produção e da sustentação econômica do estado. O Ministro da Agricultura (Reinhold Stephanes) entendeu a extensão da crise e se mostrou receptivo às propostas. Porém, existe uma barreira irresponsável no Ministério da Fazenda impedindo que as soluções sejam encaminhadas e cheguem ao campo. Até parece que o Ministro da Agricultura não é ouvido na Fazenda e suas posições não encontram eco junto às autoridades econômicas.
O que está na origem desta crise no campo, que se agrava hoje com a apreensão das máquinas?
Ricardo – As soluções paliativas que sempre foram adotadas pela União fizeram com que, nos últimos quatro anos, fosse criada uma bolha financeira de problemas como endividamento e a falta de renda do setor aprofundada pela atual crise de crédito para o campo. Não podemos esquecer que os custos de produção nesta safra atingiram níveis jamais praticados. Tudo isto foi agravado pela crise internacional, que trouxe uma asfixia de crédito para o segmento. Como se não bastasse, o preço das commodities despencou e a conta para o produtor novamente não fecha. O setor, que já não tinha crédito, viu sua renda desaparecer e não teve condições de honrar as prestações das dívidas vencidas em 15 de outubro. Para finalizar o processo estão ficando sem seus materiais de trabalho, no momento mais crítico da safra.
E o governo federal tinha conhecimento de que esta situação poderia chegar onde chegou?
Ricardo – O governo foi mais que avisado pelas entidades do setor. Essa discussão foi longa e desgastante. Com o agravamento da crise, o próprio governo do estado colocou seu peso político na tentativa de encaminhar soluções que neutralizassem as conseqüências. O que parece não ter conseguido, apesar do esforço.
As entidades setoriais têm ligado o atual momento da crise da agricultura brasileira à crise financeira internacional. Em que isto se justifica?
Ricardo – A crise internacional teve início com o balanço dos bancos americanos mostrando que seus ativos estavam com garantias super avaliadas. Com o desaquecimento da economia, a bolha imobiliária estourou, quebrando bancos, financeiras e corretoras. Isto derrubou o crédito e detonou a crise, que se tornou mundial. Com o setor da produção rural, no Brasil, ocorreu o mesmo problema. Vários bancos, especialmente aqueles de montadoras de máquinas, estão com suas posições de crédito junto aos produtores super avaliadas no que se refere às garantias. Trocando em miúdos, as máquinas que garantem as dívidas dos produtores valem, em média, menos da metade do valor dos créditos dos bancos. Com a impossibilidade de geração de renda e quitação das parcelas da dívida, formou-se uma bolha artificial que vem sendo prorrogada pelo governo sem uma solução definitiva. Justamente no ano em que o mundo vive sua maior crise o governo tem sido menos eficiente no trato desta encrenca, que diz respeito diretamente à economia de Mato Grosso e à principal pauta de exportações brasileira, de importância estratégica no propósito de amealhar reservas para enfrentar a crise mundial. O presidente Lula não cansa de dizer que a crise não é brasileira e que a economia e o sistema financeiro são sólidos o suficiente para barrar os efeitos da crise mundial. Não é verdade. O governo se esquece de avaliar o quanto é podre a carteira de créditos destes bancos de montadoras de máquinas e, até mesmo, do Banco do Brasil. Com o impasse que se criará com a apreensão das máquinas dos produtores será dado o start para a crise financeira brasileira. Foi no interior dos EUA que teve início a crise imobiliária americana que devasta as finanças mundiais. Será aqui no interior do Brasil que será detonada a bolha de crédito rural dos bancos. O subprime existe e certamente fará muito estrago na economia brasileira.
Como fica o produtor nesta crise que se aprofunda?
Ricardo – O produtor foi o primeiro a sentir os efeitos e, infelizmente, é o primeiro a sentir as conseqüências. Enquanto outros setores começam a perceber os sintomas da desaceleração da economia, o produtor rural já começa a perder seus instrumentos de trabalho, que são as máquinas. Imagine se retirassem os robôs das linhas de produção das montadoras de automóveis. Estamos sofrendo o início dessa realidade.
Elaborado pela assessoria do Sindicato Rural de Rondonópolis com colaboração da Ascom-Aprosoja/MT